sexta-feira, 14 de abril de 2017

Voz silenciosa


Começar a conhecer um lugar novo é como começar a conhecer alguém. Há a primeira impressão, as memórias a que aquele lugar te remete, as relações que se estabelecem nele e, principalmente, que sentimentos aquele canto do mundo ativa em vc. Tenho gostado particularmente dos lugares-pessoas que abraçam, que acompanham os passos, ora lentos ora rápidos, daquela relação que começa a se formar. Entrar no Saco do Mamanguá foi como entrar em mim, me perceber pequena na imensidão do todo, e enorme no silêncio de seus dias. Nunca havia me sentido tão bem em um lugar. Foi lá que voltei, com toda a gentileza do mundo, aos meus 4 anos de idade, quando eu e minha família vimos a Andreia, tão pequenina, partir rumo ao desconhecido. Foi lá no Mamanguá que a Andreia, cujas palavras nunca foram pronunciadas, se tornou de repente tão imensa. Foi lá que eu e ela, em nossas gigantes pequenezas, nos transformamos na voz de Deus. Nunca antes ouvida por mim, sua voz era linda, calma como as águas que via à minha frente. Uma voz que conversava comigo sem dizer uma só palavra, uma voz que me envolvia no abraço mais acolhedor da vida. Era o abraço da mata, do mar. Era o abraço de uma criança. Era o meu abraço silencioso, de mim para mim, do mundo em mim, e de mim para o mundo.
Comecei a conhecer o Mamanguá, comecei a conhecer Deus.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Eu e Cher

Há 12 anos, eu estava na oitava série. Se fosse horário de escola, provavelmente eu estaria contando os minutos pra chegar em casa e assistir mais uma vez o DVD da Cher, "Living Proof: The Farewell Tour". Isso mesmo, eu tinha 14 anos e era vidrada em uma cantora que poucos da minha idade conheciam e que já estava se despedindo dos palcos. O ano de 2005 seria o último da turnê de despedida. Saber que eu havia acabado de conhecer, e me apaixonar, por alguém que já estava indo embora era algo que me indignava e me fascinava ao mesmo tempo. Me lembro que naquela época nunca quis tanto ser uns 30 anos mais velha pra poder ter acompanhado sua carreira e seus shows. Como a conheci? O que havia nela que me encantava daquele jeito e me fazia passar horas em frente a uma tela? Até hoje não sei dizer e talvez nunca saberei ao certo, porque cada vez que a ouço, seu som me toca em um lugar diferente. O que sei é que a música da Cher, seu sorriso e sua força me deixam feliz e me fazem esquecer do resto das coisas que não me deixam. Me deixam mais forte até hoje, assim como me deixavam naquela transição pro Ensino Médio e em meio a tudo e tanto que devia se passar dentro de mim e que eu não sabia como traduzir aos 14 anos. Mas o que quero contar mesmo é sobre um dia em que estava na minha casa, um apartamento substituto na verdade, já que a nossa casa havia sido inundada pela chuva de uma caixa d'água estourada. Eu estava lá, em um lugar que não era a minha casa, um quarto que não era meu quarto, pesquisando em quais lugares do mundo a Cher estaria nas próximas semanas. Foi aí que meu pai entrou no quarto dizendo que precisava me contar uma coisa. "Filha, veja aí na agenda de shows quando é o show dela em Montreal, no Canadá". Seria em breve. "Sabe esse show aqui? Vc vai assistir ao vivo!". Meu pai teria um congresso de medicina e eu e minha mãe iríamos junto com ele passar cinco dias na cidade canadense. Não me lembro da minha reação na hora, sei que agora, só de pensar nisso, meu olho enche de lágrimas e sinto a maior felicidade que pode ocupar e transbordar o corpo de alguém. Fomos. Enquanto vivia aquele sonho, naquela cidade tão linda, lembro de ter sentido medo de ele não ser real. Para registrar o momento, levamos para o show uma filmadora que logo foi confiscada por um segurança. "Não se pode gravar a apresentação". Dependia só de mim, da minha memória, reviver a presença daquela mulher. A minha presença na presença dela. Tive medo de esquecer, de ela sumir, morrer, de aquele momento desaparecer pra sempre de mim. Mas "Farewell tour", a turnê de despedida, nunca foi uma despedida. Porque quando há memória, a despedida é temporária, e os reencontros acontecem quando a gente menos espera. Como nesta manhã de quarta-feira, 12 anos depois do dia que fora um dos mais felizes da minha vida.

Aqui vai uma das músicas mais legais dela, Strong Enough :) 


domingo, 2 de abril de 2017

Árvore tombada

Há mais ou menos trinta anos, vento e chuva forte a derrubaram. Doeu fundo. Havia perdido seu lugar na mata. Passou anos deitada, sem força, sentindo a pedra enorme que era seu novo chão. Em silêncio, sem que ninguém soubesse, percebeu que ainda havia raiz. E não só. Havia raiz e havia água e havia mangue. Havia alimento para seguir vivendo. Os galhos, pequeninos, olharam o sol e decidiram seguir firmes em sua direção. Direções outras, tão diferentes daquela que estava prevista dentro do espaço em que era rainha. Para cima, para os lados. Não importava mais como nem para onde iria crescer, importava agora que seguisse se espalhando pelo novo e sustentando sua raiz. No movimento sutil de seu tempo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Confia em mim

"Confia em mim"
Frase rara, espécie em extinção. Expressão que quando dita com presença, com verdade, é a pontinha da flor que pode brotar do asfalto. É a linha que separa o joio do trigo.
Cultivemos, para que um dia possamos também dizer, com a mesma presença e verdade:
"Eu confio em você"

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Palavras à esquerda

Um dia olhamos para a autoridade e a chamamos de autoritarismo
Vimos a liderança e dissemos que ela era intransigência
Dedicação e seriedade transformaram-se em meritocracia
Colocamos as roupas, maquiagens e sapatos altos no armário do padrão de beleza
Confundimos os posicionamentos firmes com ausência de diálogo
Chamamos os silêncios de covardia
Olhamos nossos desejos nos olhos e os nomeamos egoísmo
Sem autoridade, sem liderança, sem vestimentas, sem posicionamentos, sem silêncios e sem desejos, perdemos nossos nomes, nossos corpos. Se é que algum dia os tivemos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Desejo para 2017

O que desejo para o mundo em 2017?
Um profundo aprimoramento de nossa capacidade de leitura. Leitura de textos, de falas, de silêncios, de nosso mundo interno, de nossas relações.
Que possamos resgatar e valorizar nossas inteligências.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Destruidores de seres e sonhos

Destruidores de seres e sonhos
Não estão lá longe, em outro mundo. Estão bem aqui, em nosso cotidiano. Falam alto e sem parar. São ruins de ouvido. Escuta, então, nunca aprenderam. Nunca precisaram ouvir, já que seus monólogos bastavam para a própria sobrevivência.
São estraga-prazeres por definição. Ao sinal de qualquer brilho nos olhos alheios, eles são os primeiros a tirar do bolso o riso sarcástico ou a fala grosseira. Não suportam ver nenhuma conquista. Passam o dia reclamando. Reclamando, não denunciando. Nunca resolvem problemas. Às vezes se incomodam e se indignam com as mesmas coisas que vc. Às vezes são homens, às vezes são mulheres como vc. E por serem parecidos, vc acha que está tudo bem.
Muitas vezes vc pode até se apaixonar por um deles. Paixão ilusória. Dessas que servem pra nos aproximar de algo que precisamos curar. Eles vão duvidar de vc, de seus ideais, de seus desejos. Vão pisar em seus medos, dizendo que vc é sensível demais. Como disse, são ruins de ouvido. Vão dizer que a música de que vc gosta é ruim, o filme é brega, o passeio é modinha. Vão rir de vc todos os dias. Vão dizer que é brincadeira. Vão te chamar de exagerada, xiita. Vão gritar "não levante a voz pra mim".
Vão tentar te convencer de que vc é o que na verdade eles são. Não são bons em admitir falhas. Erros, nunca. Às vezes vc vai acreditar no que dizem. Vai duvidar das suas palavras, de seus gostos, do que te faz bem. Com eles, vc pode até beber mais do que gostaria naquela noite, fumar o que não queria, dizer palavras que não são suas. Vc pode até se tornar, provisoriamente, o que eles querem que vc se torne. Um ser fraco.
Vc vai ajudá-los quando precisam. Vai abraçá-los. Vai querer que sejam amigos. Mas aquele abraço não volta, aquele conselho não vem quando vc precisa, aquela ajuda não acontece.
Destruidores de seres e sonhos têm sempre uma resposta pronta. Às suas críticas, às suas falas. Tentam fazer com que vc se sinta culpada sempre. Te farão duvidar de seus valores. São sugadores de memória. Te farão duvidar da sua história e de suas intenções. Contarão aos outros mentiras sobre vc. Nunca te farão perguntas querendo saber a sua versão dos fatos. "Não importa o que vc tem a dizer", eles afirmam. Esgotam suas energias. Não sabem dialogar porque não veem a existência do outro.
Destruidores de seres e sonhos autorizam a tortura de estudantes nas escolas ocupadas. Congelam investimentos públicos em saúde e educação. Matam jovens negros todos os dias. Olham com nojo e querem excluir a vida de tudo que não é espelho. São golpistas. São machistas, racistas, homofóbicos. E são também muita gente que se diz contra tudo isso. E é aí que eles quase te enganam.
Não estão longe, em outro mundo. Estão bem aqui, em nosso cotidiano. Podem estar na família, no trabalho, entre os amigos. No ponto de ônibus, nas redes, nas ruas. Estão espalhados, tentando matar nossas-suas vidas.
Resistimos. Vivemos e sobrevivemos. Existimos. Mal sabem eles que construímos seres e sonhos muito mais fortes bem em cima dos escombros.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Quando olhei nos olhos do horror

Até esta parte do caminho, não havia conseguido encarar tal criatura. Até aqui, qualquer visão dos contornos de sua sombra me faziam desviar o olhar, o pensamento, trilhar outros rumos.
Mas eis que fui adentrando suas sombras até chegar em sua imagem. Lá dentro, entre a sombra e seu corpo, um vento gelado pairou em minhas entranhas e foi sugando minhas energias até quase me derrubar.
Não podia desfalecer. Não desta vez. Não mais.
Ainda havia um pouco de ar e sangue quente que passavam por mim. Estavam lá, em meu abdômen, pulsando e resistindo à tontura e vertigem que me tomava a cada vez que olhava nos olhos dela.
Eu seguia viva, ainda que fraca.
Uma chama uterina me manteve sentada, encarando a criatura. O calor crescia, subia pela barriga, mãos, garganta, rosto. Não falei. A fúria de meu silêncio queimava todas as lanças que ela insistia em atirar em mim.
Deixar que aquelas lanças atravessassem meu coração seria como tirar a minha própria vida. Entregar-me à morte, à dor insuportável que vive na criatura. Entregar-me ao medo criador daquele ser.
Um ser covarde, cujo desejo maior é não ter que olhar para a sua dor. É ver seus maiores fantasmas me tomarem, para acreditar que são apenas meus. É aniquilar-me e rir sarcasticamente da minha morte. É vangloriar-se de seu poder sobre mim. É comemorar euforicamente a falsa conquista e controle do mundo. É não ouvir a ninguém, pois qualquer dúvida, qualquer outro, seriam responsáveis por ecos ensurdecedores, enlouquecedores.
Aquele ser, patriota de um país amorfo, sem nome, hasteia a bandeira da morte em plena vida.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tão linda essa minha neta

“Vamos sair em cinco minutos, estão todas prontas?”
Meu pai se aprontara antes de nós quatro (eu, minha mãe e minhas duas irmãs).
Olhei-me no espelho. Calçava um all star branco, que eu vivia tentando sujar o máximo possível para que ficasse igual ao da menina do “Clube das Babás”, meu filme preferido na época.
Meu all star branco quase não aparecia por de baixo do macacão jeans. Eu gostava assim, de usar o macacão todo largo, arrastando no chão.
A camiseta por baixo do macacão também era larga. Não queria nada me apertando. A única coisa que apertava um pouco era o boné na cabeça. Usava ele virado pra trás.
All star, macacão e boné. Pronto, agora eu estava pronta para o almoço na casa da minha avó.
“O que é isso, Priscila? Uma menina como vc usando essa roupa? E esse boné?”
Após o comentário, um abraço seguido de tapinhas nas costas.
A próxima a ser recebida era minha irmã do meio. Dois anos mais nova que eu, ela usava uma mini-blusa rosa, dessas que deixam parte da barriga aparecendo. A calça legging era apertada e também colorida, antecipando a sandália com altas plataformas. Um brinco grande chacoalhava enquanto minha avó a abraçava sorridente.
“Tão linda essa minha neta!”

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quem habita a casa do silêncio?



Há muitos e muitos anos, o Medo habitava a casa do Silêncio. Ninguém sabia dizer em que momento o Medo entrou naquela casa, nem se lá morava alguém antes dele.
Na casa não havia janela, e as paredes eram as mais duras e grossas de todo o mundo. Nunca ninguém havia chegava perto da casa. Era verdade absoluta que qualquer um que tentasse se aproximar seria recebido com as flechas e os espinhos espalhadas em frente à construção. Por nunca ter saído de casa, o rosto do Medo não era conhecido por ninguém. Todos imaginavam que ele seria um monstro enorme, horrível e assustador.
O Desejo, que não morava naquela cidade, um dia chegou de uma longa viagem e parou para repousar por uns dias. Repousar era algo raro para o Desejo, que costumava andar, andar e nunca parar. Enquanto estava por lá, conversou com todos os habitantes daquele lugar.
Fazer perguntas era uma das coisas de que o Desejo mais gostava em seu dia a dia. Cada pergunta o direcionava para lugares e pessoas diferentes, por isso ele quase nunca parava quieto. Nessas longas conversas, perguntou aos moradores da cidade: “eu gostaria de dormir na casa do Silêncio, posso entrar lá?”.
Os moradores estranharam a pergunta. Nunca ninguém tinha se perguntado se poderia entrar na casa do Silêncio. Era a morada do Medo e ponto final.
Mesmo sem uma resposta, o Desejo foi até a casa.
Logo que abriu a porta, o calor que envolvia seu corpo agitado recebeu o frio que vinha lá de dentro.
Ao ouvir que alguém entrava em sua casa, o Medo assustou-se. Precisava ver quem era. Mas percebeu que estava todo congelado. Não havia reparado a camada de gelo que o cobrira durante todos esses anos.
Antes de entrar na casa, o Desejo percebeu que precisava parar para entender que lugar era aquele. Precisava de cuidado e atenção para desviar das flechas e dos espinhos que cercavam a casa.
Entrou na casa do Silêncio.
O calor que vinha do Desejo derretia a torre de gelo que impedia o Medo de se mexer. O frio que vinha do Medo pedia atenção e calma ao Desejo.
Encontraram-se. Olharam-se.
Quem é você?
Silenciaram, na casa do Silêncio.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Por que votei em Haddad?

Depois de muitas conversas, ponderações, angústias e esclarecimentos, tomei minha decisão. Votarei em Fernando Haddad no domingo. Sigo com dúvidas, questões e críticas. Pessoas que admiro e em quem confio muito me apontaram problemas e erros indiscutíveis na gestão de Haddad e que precisam ser cuidados daqui pra frente. O tratamento dado à população em situação de rua é um deles. A GCM é outro. As condições de atendimento nos postos de saúde nas periferias também. O vice Chalita desperta minha desconfiança e trauma pós-golpe. Além de outros pontos que com certeza surgirão a cada nova conversa. Mas junto a todas essas questões, sem eliminar o lugar e a importância de nenhuma delas, não posso e não vou excluir da minha escolha, e dos próximos passos que acredito para esta cidade, todas as experiências positivas que eu vivenciei ou acompanhei de alguma forma nos últimos tempos. Outras pessoas em quem também confio muito me apresentaram a mudanças e projetos importantes que foram feitos nas periferias na gestão Haddad, sobretudo no que se refere à educação (os comentários estão num post aqui embaixo). Além disso, tenho percebido, cada vez mais, que política é também experiência. E qualquer decisão tomada sem (também) me levar em conta seria uma decisão deslocada, equivocada, autoritária até. Então, falando do que vivi: ocupar o espaço público, em ciclovias, carnavais e na Paulista Aberta me fez começar a olhar para o lugar onde eu sempre morei com olhos novos. Toda vez que caminho, danço ou pedalo por São Paulo, volto com mais questões e ideias. Com alegrias, entusiasmos e tbm incômodos, revoltas. Volto com olhares que se ampliam. Com um corpo que se percebe e percebe os outros. Volto me conhecendo melhor, por conhecer mais o espaço onde habito e as pessoas que compartilham esse espaço comigo. Por começar a visualizar e querer entender as contradições de uma cidade. Reconheço que essa é uma percepção ainda limitada, sim. Mas é também uma voz nova que conversa comigo e que me diz que ainda há muito pra conhecer e muito pra fazer. Por isso sigo com esperança de continuidade de ações que sejam transformadoras e positivas para cada vez mais pessoas. Não só pra mim, não só para os jovens de classe média alta, que fazemos parte do grupo que mais aprovou a gestão Haddad. Desejo, profundamente, que o que foi feito de bom seja ampliado e aprimorado por toda a cidade de São Paulo. Que a gente saiba continuar fazendo críticas, mas também saiba manter e sustentar as conquistas. Que a gente não permita que pessoas e projetos conservadores, discriminatórios e totalitários se apropriem dos nossos espaços internos e externos. Que injustiças não sejam silenciadas, toleradas ou esquecidas. Que, juntos, sejamos mais fortes que qualquer tipo de violência, neste e em qualquer outro tempo.

sábado, 24 de setembro de 2016

Texto, faz tempo que a gente não conversa


Querido texto,

Faz um tempão que a gente não conversa, né?
Vim aqui pra te dizer que vc faz uma falta danada na minha vida. Até que vc tenta aparecer de vez em quando, naquelas anotações soltas e meio desconexas nos cadernos que eu sempre levo na mochila. Mas tem sido raras as vezes em que eu paro pra organizar essas palavras, dar uma forma a vc e te colocar para os outros te lerem.
Vc apareceu na minha vida, de fato, em 2013. Lembra disso? Me ajudou a segurar uma barra bem pesada. Quando eu pensei que fosse enlouquecer de verdade, vc vinha e me chamava pra bater um papo. Aí a gente organizava juntos e em palavras o que era muito difícil de ver e sentir.
Eram textos muito loucos que nasciam desses nossos encontros. As palavras brotavam, doíam, e eu pensava que quando vc se apresentasse ao mundo, ninguém ia querer te ler. Na minha cabeça, vc poderia me machucar e machucar muita gente. Eram memórias e histórias paradas por tanto tempo, que eu tive muito medo de me enxergar nelas e de enxerga-las “fora” de mim, assim, pra todo mundo ver.
Lembra aquela vez que a gente falou sobre a morte da Andreia, minha irmã? Caraca. Me lembro muito bem de quando escrevi essa história, em uma aula de técnica de redação na faculdade. De técnica vc não tinha nada, era só aquele turbilhão que parecia que ia me explodir. Minha pálpebra esquerda tremia e eu pensei que fosse desmaiar. Mas vc segurou a minha mão, como quem diz “vc é forte, continua, que eu preciso nascer”. E foi lindo.
O nosso maior interlocutor era um professor querido da faculdade. Pra ele eu não tinha vergonha de te mostrar. Vc podia ter a cara e a forma mais esquisitas, mas ele estava lá de coração e braços abertos pra te ouvir, nos ouvir e nos receber.
De 2013 para cá foram 19 cadernos e bloquinhos que guardo perto dos meus livros, somados às incontáveis anotações no bloco de notas no celular. Quem sabe um dia todos eles não se juntam e decidem virar um livro, hein? Seria massa.
Acontece que agora eu me formei na faculdade. Não tem mais aquele professor pra dar a nota 10 que me assegurava que vc estava bom pra ir pro mundo. Não temos mais aquelas professoras que questionavam, encorajavam, reforçavam que nós éramos ótimos.
Essa coisa de não ter mais professores por perto é difícil, viu. Agora somos só nós dois.
E nesse processo de estarmos sozinhos no mundo, vc deve ter percebido como eu sou dura com vc. Tem dias que nem deixo a ideia amadurecer e já vou logo te abortando. Em outros, eu fico te comparando ao que vc já foi, à linguagem que eu usava pra te criar.
Aquela linguagem parece não te servir mais, é como uma roupa que ficou apertada durante o nosso crescimento. Sei que às vezes eu fico brava quando percebo que a ideia que eu tinha de mim não me cabe mais. Sou resistente pra caramba.
Quando vc decide se mostrar com a sua cara nova, te chamo de contraditório, de simples demais, de bobo, de imaturo, de infantil. Eu não te deixo ser essa criança que, no fundo, eu sei que vc quer ser.
Na real, vc sempre foi criança. Só que nos últimos anos essa criança trouxe muita dor, intensidade e complexidade. E agora vc tem vontade de se manifestar de outras formas, mais leves talvez, e eu insisto em te dizer que o mundo não vai te aceitar assim.
Insisto em dizer que vc tem que voltar a ser como antes, falar com aquela voz adulta séria e pesada. Te digo que vc não pode mostrar pro mundo as minhas alegrias, desejos, tristezas e angústias do jeito que vc quiser. Fico querendo controlar a sua forma de nascer.
Sabe, isso é muito violento… Não posso fazer isso com vc, que sempre está pronto pra me ajudar. Por que eu não permito que vc se manifeste assim, do jeito que vc é hoje, como bem entender? Por que não te deixo ser contraditório, esquisito e até bobo?
Talvez aqui seja importante te dizer que o fato de eu bloquear todas essas suas tentativas de se expressar é muitas vezes reforçado pelo mundo chato em que a gente vive. É um mundo cheio de gente legal, sim, mas também tem muita gente mala que fica julgando, interpretando e maldizendo os textos dos outros. E não falo aqui só dos textos escritos, não. Julgam as nossas falas e até o que não dizemos! Fazem isso sem perguntar o que queríamos dizer. Onde já se viu, né?
E aí hoje eu percebi que eu estava fazendo com vc a mesma coisa que essas pessoas chatas fazem. Não estava te deixando ser feliz! Não estava te deixando dançar pelo mundo. Estava logo te julgando e te expulsando da minha vida. E aí ficamos um tempão separados.
Por isso venho te pedir sinceras desculpas. Desculpas por duvidar de vc, desconfiar das suas mudanças, exigir que vc seja quem não é mais, quem vc não mais precisa ser.
Tudo bem se vc precisar de um tempo pra se recompor de tantos maus tratos. Mas quero te dizer que estou aqui quando vc quiser voltar. Ainda não consigo ser uma adulta tão generosa quanto aqueles professores que tanto te ajudaram a dar os primeiros passos. Mas prometo que vou me esforçar pra ser uma pessoa melhor pra vc e pra mim. Quem sabe a gente não volta a conversar?

Um abraço bem quentinho e com muitas saudades,

Pri

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A pinta na barriga

Não me lembro se foi quando nasci, ou alguns anos depois, que ganhei uma pinta no lado direito da barriga. Ela era o meu charminho. A minha pinta na barriga.

Lembro-me de como ela aparecia quando eu usava biquíni em Guaecá. A pinta combinava com a praia. Ela aparecia quando eu mostrava o meu corpo às outras pessoas, enquanto brincava, corria ou surfava.

Em algum momento  entre uns 10 e 12 anos, eu passei a sentir raiva daquela pinta. "Ela é muito grande!", "todo mundo deve achar que ela é feia!", "ninguém tem uma pinta assim!". Todos os dias eu pensava, e insistia aos meus pais, que queria arrancá-la do meu corpo. Minha marca, minha memória da praia, se tornara minha maior ameaça.

Insistente que era, fui até o fim na ideia de arrancar aquela pinta. Fui ao cirurgião plástico amigo dos meus pais, que fez uma micro-cirurgia para tirar o incômodo de mim.

Na escola, mostrei a todos os meus amigos o curativo que encobria os pontos dados na minha barriga. Me orgulhava de mostrar a eles que havia retirado do meu corpo aquilo que me diferenciava deles. Agora eu poderia ser igual. Era isso que eu queria.

A cicatriz na minha barriga me olha, triste, diariamente.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Volta para São Paulo


Praça do Pôr do Sol/13 de janeiro de 2016

Depois de quase 15 dias na praia, retorno a São Paulo.
No carro, minha respiração acelera. Meu ar parece querer sair de mim. Desequilibra-se em outros. Vai se do dissociando do que conquistei estando junto a mim.
Como pode o mar da praia unir os meus pedaços e o mar da cidade jogá-los para o ar como se não fossem meus?
São Paulo cria necessidades e carências em mim. "Venha", "faça", "fale", "responda", "exista gritantemente", "não fique parada", "pense, pense, pense", "planeje-se".
Existir em silêncio parece uma impossibilidade paulistana. Uma impossibilidade minha. A ausência de sons e fazeres ameaça o ser na cidade.
Aqui, o silêncio do outro me atormenta. Enxergar o outro e enxergar-me com outros é mais difícil. Surgem, da sombra, fantasias de desafeto, abandono, incompletude, angústia.
Na dor, caminho. Caminho em busca dos poucos verdes que há por aqui. Caminho em busca do mar. Da união. Da unidade que permite a vida.
A criança que vive em mim - e em todos nós - precisa da natureza para brincar livremente e dançar com suas memórias. Só assim é possível ser.

domingo, 13 de dezembro de 2015

"Oi, preciso conversar"

"Oi, preciso conversar". A menina ensaiava essa frase repetidas vezes dentro de sua cabeça. Gostaria de dizer isso a alguém que ela não sabia bem quem era. Sabia que era alguém que não poderia ouvi-la. Alguém que estaria ocupada demais com trabalho, família, pendências de fim de ano. Alguém a quem ela sempre pedia desculpas por desabafar. "Desculpa se estou te enchendo". 

Toda vez que tentava dizer "oi, preciso conversar", dizia qualquer outra coisa para substituir. "Estou com saudades!", "qual o contato daquela pessoa, mesmo?", "vou fazer um churrasco aqui em casa, quer vir?". Qualquer coisa que não fosse "oi, preciso conversar". 

E seguia sentindo que suas angústias eram pequenas, seguia pensando em como a outra pessoa receberia seu pedido de ajuda, de afeto. Via, do outro lado da tela, alguém que dizia "de novo ela com seus desabafos sem sentido, que chatice!". 

Essa imagem travava suas palavras. Digitava algumas vezes "oi, preciso conversar" e não enviava. Por medo do que a outra pessoa iria pensar, seguia acreditando que ser adulta era engolir o choro, era não dizer "oi, preciso conversar", para não atrapalhar ninguém. 

domingo, 29 de novembro de 2015

A lua e a borboleta

Lua cheia. Eu e ela, sozinhas na noite. Forte, brilhante, intensa, ela olha para mim. Queria ter a força silenciosa da lua.

Borboleta no meu quarto. Como ela foi parar lá? Quero libertá-la. Tenho medo de machucá-la, de me machucar ao machucá-la. Ela me encanta e me assusta. Tento pegá-la. Arranco parte de sua asa. "Eu sou um monstro por querer te libertar", penso e tremo. Ela tenta mas não consegue fugir.

Apago a luz. Quem sabe ela não dorme, ou morre ao meu lado. Mas não, ela quer voar. Insiste em se mexer enquanto tento dormir.

Parece que não conheço outra forma de libertar a borboleta a não ser a ferindo.

Vou ao quarto dos meus pais. Meu pai diz que não sabe como ajudar. Está com sono. "Pegue a borboleta com uma toalha, filha", diz minha mãe.

Abracei a borboleta com a toalha e a libertei pela janela. Teria ela morrido depois de ter sido solta? Não olhei para baixo para checar.

Parte da sua asa ainda está no tapete do meu quarto.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Escrever para recriar encontros

No meio de tanta coisa esquisita acontecendo dentro e fora de mim, tenho escutado palavras maravilhosas em encontros muitos especiais.

Semana passada, a Janaina Peresan, arte-educadora, me disse que acredita na pedagogia do carinho, do acolhimento.


Clarice Niskier, na peça "A alma imoral", diz que cada um tem seu tempo, pra tudo... Em um momento do monólogo, ela faz um intervalo, para repetir trechos que não tenham ficado claros para a plateia.


O Patrício, professor de Educação Física, afirmou hoje que oponentes podem ser parceiros, na medida em que exigem mais de nós. "Os oponentes não precisam ser adversários".


No meio desses encontros, a Priscila-criança que vive dentro de mim me fez um pedido especial:

- Tenho medo da morte desses encontros. De que esse sentimento quentinho desapareça. Podemos nos abraçar e abraçar essas pessoas pra sempre?

E eu digo a ela:

- Prometo que vou tentar. Talvez seja isso o que chamam de memória, né?

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Atraves-sou

Tentei fugir deste texto o máximo que pude. Preenchi minha semana com tarefas e mais tarefas. Passei os dias com a preocupação de erguer muros que me impedissem de ver qualquer coisa que não fosse superfície. Mas não posso mais. É preciso dizer e descascar tudo até chegar no centro da minha palavra.
Tenho medo de escrever sobre mim porque desconheço o abismo em que cairei. Ao dançar por este papel, flutuo entre os pensamentos e a certeza da palavra escrita. Cada linha reflete minha finitude e meus recomeços. A ordem das palavras protege a desordem de meu ser. E ao me proteger para o mundo, posso enlouquecer por dentro.
Meus contrários tentam se destruir, me destruir. Desassossegam minha alma e me fazem desmaiar na multidão. A massa que me arrebata é a força que pulsa por dentro. Vejo-me espalhada em outros seres. Sou também os outros. Ando por ruas lotadas e sucumbo ao vidro que corta e jorra sangue.
Encontro com o meu não-eu e nos perdemos em abraços. Paixão e raiva. Quem seria eu senão o encontro com o meu vazio? Prazer. Pulsa por dentro o desejo de me fundir aos contrários, de me perder em transe até o enlouquecimento. Orgasmo-morte. Mergulho até o fundo, sem ar, e arrasto meu dedo na areia da morte.
Retorno à superfície com grãos em meu corpo que me arranham de dor. Ela está em mim. Sou com dor. Mas a dor é o todo que amanhã é parte. O cheio e o vazio que se fundem e tentam, em vão, gritar em repulsa. Existo na força que pulsa no encontro entre opostos. O centro não pode ser pronunciado; se o for, deixo de existir.
Minha travessia é meu susto transformado em vida. O norte forma-se a partir da vertigem que existe entre o conhecimento e o desconhecimento. Um pulso vital irrompe e voa pela eternidade. Atravesso-me pelas palavras. Piso na terra. Posso ver meus contornos no espelho do silêncio.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Morte precoce

O ritual diário de deslizar os dedos pela tela de meu celular, a fim de me inserir nas atualidades postadas pelos meus conhecidos nas redes sociais, tem se tornado entediante – se é que sempre não o foi. Principalmente nestes meses que antecedem as eleições, tenho sentido que a complexidade inerente ao diálogo tem sido pressionada ao limite, até se tornar um estreito post de Facebook.

“A Marina é evangélica e eu não voto em evangélicos”; “A Dilma é do PT e eu não voto em partido de corruptos”; “Aécio Never”. Após cada debate televisivo entre os presidenciáveis, a enxurrada de opiniões e impressões – forte, assustadora, porém passageira – muitas vezes vem para eliminar qualquer início de pensamento.

Urgentes em informar seus curtidores sobre o destino de seu voto à Presidência da República, muitos de meus amigos facebookianos acabam entrando em uma guerra de singularidades. Expressam-se sem considerar a existência do Outro – tanto o interlocutor quando o objeto da fala -, descarregam frases engessantes e engessadas, abortando o pensamento antes que este pudesse se transformar em feto.

Há quem diga que vivemos, hoje, uma realidade que permite o exercício de nossas liberdades, principalmente no que diz respeito às possibilidades de comunicação em rede. Sim, as potencialidades da internet são inúmeras: organizamos e conectamos movimentos sociais; acessamos e produzimos conteúdos que no passado poderiam ter sido censurados; criamos novos espaços de convivência.

Ao mesmo tempo, muitas dessas flechas que - sob a forma de incógnitas - apontam para novos olhares são derrubadas pela pressa de transformar contos em fábulas. Acabamos por informar muito e comunicar pouco, por concluir a síntese sem antes exercer o duro diálogo com a antítese. Nas redes sociais e fora delas, falta-nos tempo silencioso para compreender a pluraridade, que, como afirmou Hannah Arendt, é condição humana.

terça-feira, 18 de março de 2014

Autoengano

Aquela última sexta-feira de janeiro já contava suas últimas horas quando eu cheguei à minha casa. Foi uma das únicas vezes em que abri a porta sem que sorrisos e abraços acolhessem o meu dia cansado. Minha família tinha ido viajar e eu passaria os longos minutos de sábado e domingo sem nenhuma voz além daquela vinda dos meus pensamentos. Em meus 23 anos, não me lembro de ter ficado completamente sozinha por mais de um dia. “Vai ser tranquilo”, eu dizia a mim mesma quando a ponta do iceberg de medo me cutucava, “afinal, já tenho tudo planejado para estes dias”. Desde pequena, agendas a planilhas mentais sempre estiveram ao meu lado, dando empurrões para longe em qualquer sensação que me desviasse dos caminhos certos.
            O tapete macio em frente à televisão chamou-me para me deitar alguns instantes sobre ele. Antes que eu me entregasse ao pretenso relaxamento dos meus músculos-sempre-tensos, apertei o play em Beethoven, com a intenção de que as curvas de suas sinfonias acalmassem meus sentidos. Com braços ao lado do corpo e pernas abertas, fui ouvindo nota por nota, tentando me ater a cada uma delas. Como no extremo som do perigo, percebi meu coração amedrontado e acelerado nos tons mais graves e transfigurei-me para uma não-forma, perdida em não-mundos. Quis parar a música, porque o frio que tomava a sala pedia um retorno ao conforto de minha casa.
            Mas não podia parar, não queria fugir de mim. Sabia que de alguma forma aquele amontoado de cores que se mexiam rapidamente devia existir por mais tempo. Quando eu estava a ponto de gritar, violinos e pianos entraram na sala como um pedido de calma, aquecendo o espaço entre o meu corpo e o teto. Foi aí que dei um sorriso – daqueles que são capazes de abraçar – para dentro de mim, o que se revelou uma novidade tremenda. O dia a dia dos meus sorrisos muitas vezes é fabricado para fingir agrado a um outro rosto fingidor.
            Durante toda a sinfonia, eu e o tapete bege da sala enfrentamos ainda alguns medos de altura e a certeza do solo. A música acabou e o que vi foi o branco do teto e, como se eu transferisse meu olhar de ângulo, pude observar também o meu corpo, lá de cima. Desconheci-me. Apavorei-me. Quem seria aquela mulher-criança deitada no chão de um lugar desconhecido? Estranhei tudo a meu redor; o sofá, as cadeiras, as flores, o ar. De onde vieram estes cabelos e estas pernas? “Devo estar ficando louca; meu Deus, ajude-me a não enlouquecer, eu não posso enlouquecer”, repeti algumas vezes naquela noite.
            Levantei-me e afastei-me de cada passo que eu dava. Eu observava aquele ser humano de longe. Não estava conduzindo meus gestos. Comer um pão e tomar banho foram feitos de maneira automática; eu não estava lá. Estava distante, descolada de meu corpo, de minha mente e de palavras cujos sentidos eu havia cristalizado e cujo controle eu (ou aquele corpo estranho) acreditava ter. Agora aquele ser era um nada, um vazio. O mar do desconhecimento havia, enfim, derrubado a porta laranja de minha casa.