quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quem habita a casa do silêncio?



Há muitos e muitos anos, o Medo habitava a casa do Silêncio. Ninguém sabia dizer em que momento o Medo entrou naquela casa, nem se lá morava alguém antes dele.
Na casa não havia janela, e as paredes eram as mais duras e grossas de todo o mundo. Nunca ninguém havia chegava perto da casa. Era verdade absoluta que qualquer um que tentasse se aproximar seria recebido com as flechas e os espinhos espalhadas em frente à construção. Por nunca ter saído de casa, o rosto do Medo não era conhecido por ninguém. Todos imaginavam que ele seria um monstro enorme, horrível e assustador.
O Desejo, que não morava naquela cidade, um dia chegou de uma longa viagem e parou para repousar por uns dias. Repousar era algo raro para o Desejo, que costumava andar, andar e nunca parar. Enquanto estava por lá, conversou com todos os habitantes daquele lugar.
Fazer perguntas era uma das coisas de que o Desejo mais gostava em seu dia a dia. Cada pergunta o direcionava para lugares e pessoas diferentes, por isso ele quase nunca parava quieto. Nessas longas conversas, perguntou aos moradores da cidade: “eu gostaria de dormir na casa do Silêncio, posso entrar lá?”.
Os moradores estranharam a pergunta. Nunca ninguém tinha se perguntado se poderia entrar na casa do Silêncio. Era a morada do Medo e ponto final.
Mesmo sem uma resposta, o Desejo foi até a casa.
Logo que abriu a porta, o calor que envolvia seu corpo agitado recebeu o frio que vinha lá de dentro.
Ao ouvir que alguém entrava em sua casa, o Medo assustou-se. Precisava ver quem era. Mas percebeu que estava todo congelado. Não havia reparado a camada de gelo que o cobrira durante todos esses anos.
Antes de entrar na casa, o Desejo percebeu que precisava parar para entender que lugar era aquele. Precisava de cuidado e atenção para desviar das flechas e dos espinhos que cercavam a casa.
Entrou na casa do Silêncio.
O calor que vinha do Desejo derretia a torre de gelo que impedia o Medo de se mexer. O frio que vinha do Medo pedia atenção e calma ao Desejo.
Encontraram-se. Olharam-se.
Quem é você?
Silenciaram, na casa do Silêncio.

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