quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Quando olhei nos olhos do horror

Até esta parte do caminho, não havia conseguido encarar tal criatura. Até aqui, qualquer visão dos contornos de sua sombra me faziam desviar o olhar, o pensamento, trilhar outros rumos.
Mas eis que fui adentrando suas sombras até chegar em sua imagem. Lá dentro, entre a sombra e seu corpo, um vento gelado pairou em minhas entranhas e foi sugando minhas energias até quase me derrubar.
Não podia desfalecer. Não desta vez. Não mais.
Ainda havia um pouco de ar e sangue quente que passavam por mim. Estavam lá, em meu abdômen, pulsando e resistindo à tontura e vertigem que me tomava a cada vez que olhava nos olhos dela.
Eu seguia viva, ainda que fraca.
Uma chama uterina me manteve sentada, encarando a criatura. O calor crescia, subia pela barriga, mãos, garganta, rosto. Não falei. A fúria de meu silêncio queimava todas as lanças que ela insistia em atirar em mim.
Deixar que aquelas lanças atravessassem meu coração seria como tirar a minha própria vida. Entregar-me à morte, à dor insuportável que vive na criatura. Entregar-me ao medo criador daquele ser.
Um ser covarde, cujo desejo maior é não ter que olhar para a sua dor. É ver seus maiores fantasmas me tomarem, para acreditar que são apenas meus. É aniquilar-me e rir sarcasticamente da minha morte. É vangloriar-se de seu poder sobre mim. É comemorar euforicamente a falsa conquista e controle do mundo. É não ouvir a ninguém, pois qualquer dúvida, qualquer outro, seriam responsáveis por ecos ensurdecedores, enlouquecedores.
Aquele ser, patriota de um país amorfo, sem nome, hasteia a bandeira da morte em plena vida.

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