Até esta parte do caminho, não havia conseguido encarar tal criatura. Até aqui, qualquer visão dos contornos de sua sombra me faziam desviar o olhar, o pensamento, trilhar outros rumos.
Mas eis que fui adentrando suas sombras até chegar em sua imagem. Lá dentro, entre a sombra e seu corpo, um vento gelado pairou em minhas entranhas e foi sugando minhas energias até quase me derrubar.
Não podia desfalecer. Não desta vez. Não mais.
Ainda havia um pouco de ar e sangue quente que passavam por mim. Estavam lá, em meu abdômen, pulsando e resistindo à tontura e vertigem que me tomava a cada vez que olhava nos olhos dela.
Eu seguia viva, ainda que fraca.
Uma chama uterina me manteve sentada, encarando a criatura. O calor crescia, subia pela barriga, mãos, garganta, rosto. Não falei. A fúria de meu silêncio queimava todas as lanças que ela insistia em atirar em mim.
Deixar que aquelas lanças atravessassem meu coração seria como tirar a minha própria vida. Entregar-me à morte, à dor insuportável que vive na criatura. Entregar-me ao medo criador daquele ser.
Um ser covarde, cujo desejo maior é não ter que olhar para a sua dor. É ver seus maiores fantasmas me tomarem, para acreditar que são apenas meus. É aniquilar-me e rir sarcasticamente da minha morte. É vangloriar-se de seu poder sobre mim. É comemorar euforicamente a falsa conquista e controle do mundo. É não ouvir a ninguém, pois qualquer dúvida, qualquer outro, seriam responsáveis por ecos ensurdecedores, enlouquecedores.
Aquele ser, patriota de um país amorfo, sem nome, hasteia a bandeira da morte em plena vida.
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