Não me lembro se foi quando nasci, ou alguns anos depois, que ganhei uma pinta no lado direito da barriga. Ela era o meu charminho. A minha pinta na barriga.
Lembro-me de como ela aparecia quando eu usava biquíni em Guaecá. A pinta combinava com a praia. Ela aparecia quando eu mostrava o meu corpo às outras pessoas, enquanto brincava, corria ou surfava.
Em algum momento entre uns 10 e 12 anos, eu passei a sentir raiva daquela pinta. "Ela é muito grande!", "todo mundo deve achar que ela é feia!", "ninguém tem uma pinta assim!". Todos os dias eu pensava, e insistia aos meus pais, que queria arrancá-la do meu corpo. Minha marca, minha memória da praia, se tornara minha maior ameaça.
Insistente que era, fui até o fim na ideia de arrancar aquela pinta. Fui ao cirurgião plástico amigo dos meus pais, que fez uma micro-cirurgia para tirar o incômodo de mim.
Na escola, mostrei a todos os meus amigos o curativo que encobria os pontos dados na minha barriga. Me orgulhava de mostrar a eles que havia retirado do meu corpo aquilo que me diferenciava deles. Agora eu poderia ser igual. Era isso que eu queria.
A cicatriz na minha barriga me olha, triste, diariamente.
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