quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Confia em mim

"Confia em mim"
Frase rara, espécie em extinção. Expressão que quando dita com presença, com verdade, é a pontinha da flor que pode brotar do asfalto. É a linha que separa o joio do trigo.
Cultivemos, para que um dia possamos também dizer, com a mesma presença e verdade:
"Eu confio em você"

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Palavras à esquerda

Um dia olhamos para a autoridade e a chamamos de autoritarismo
Vimos a liderança e dissemos que ela era intransigência
Dedicação e seriedade transformaram-se em meritocracia
Colocamos as roupas, maquiagens e sapatos altos no armário do padrão de beleza
Confundimos os posicionamentos firmes com ausência de diálogo
Chamamos os silêncios de covardia
Olhamos nossos desejos nos olhos e os nomeamos egoísmo
Sem autoridade, sem liderança, sem vestimentas, sem posicionamentos, sem silêncios e sem desejos, perdemos nossos nomes, nossos corpos. Se é que algum dia os tivemos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Desejo para 2017

O que desejo para o mundo em 2017?
Um profundo aprimoramento de nossa capacidade de leitura. Leitura de textos, de falas, de silêncios, de nosso mundo interno, de nossas relações.
Que possamos resgatar e valorizar nossas inteligências.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Destruidores de seres e sonhos

Destruidores de seres e sonhos
Não estão lá longe, em outro mundo. Estão bem aqui, em nosso cotidiano. Falam alto e sem parar. São ruins de ouvido. Escuta, então, nunca aprenderam. Nunca precisaram ouvir, já que seus monólogos bastavam para a própria sobrevivência.
São estraga-prazeres por definição. Ao sinal de qualquer brilho nos olhos alheios, eles são os primeiros a tirar do bolso o riso sarcástico ou a fala grosseira. Não suportam ver nenhuma conquista. Passam o dia reclamando. Reclamando, não denunciando. Nunca resolvem problemas. Às vezes se incomodam e se indignam com as mesmas coisas que vc. Às vezes são homens, às vezes são mulheres como vc. E por serem parecidos, vc acha que está tudo bem.
Muitas vezes vc pode até se apaixonar por um deles. Paixão ilusória. Dessas que servem pra nos aproximar de algo que precisamos curar. Eles vão duvidar de vc, de seus ideais, de seus desejos. Vão pisar em seus medos, dizendo que vc é sensível demais. Como disse, são ruins de ouvido. Vão dizer que a música de que vc gosta é ruim, o filme é brega, o passeio é modinha. Vão rir de vc todos os dias. Vão dizer que é brincadeira. Vão te chamar de exagerada, xiita. Vão gritar "não levante a voz pra mim".
Vão tentar te convencer de que vc é o que na verdade eles são. Não são bons em admitir falhas. Erros, nunca. Às vezes vc vai acreditar no que dizem. Vai duvidar das suas palavras, de seus gostos, do que te faz bem. Com eles, vc pode até beber mais do que gostaria naquela noite, fumar o que não queria, dizer palavras que não são suas. Vc pode até se tornar, provisoriamente, o que eles querem que vc se torne. Um ser fraco.
Vc vai ajudá-los quando precisam. Vai abraçá-los. Vai querer que sejam amigos. Mas aquele abraço não volta, aquele conselho não vem quando vc precisa, aquela ajuda não acontece.
Destruidores de seres e sonhos têm sempre uma resposta pronta. Às suas críticas, às suas falas. Tentam fazer com que vc se sinta culpada sempre. Te farão duvidar de seus valores. São sugadores de memória. Te farão duvidar da sua história e de suas intenções. Contarão aos outros mentiras sobre vc. Nunca te farão perguntas querendo saber a sua versão dos fatos. "Não importa o que vc tem a dizer", eles afirmam. Esgotam suas energias. Não sabem dialogar porque não veem a existência do outro.
Destruidores de seres e sonhos autorizam a tortura de estudantes nas escolas ocupadas. Congelam investimentos públicos em saúde e educação. Matam jovens negros todos os dias. Olham com nojo e querem excluir a vida de tudo que não é espelho. São golpistas. São machistas, racistas, homofóbicos. E são também muita gente que se diz contra tudo isso. E é aí que eles quase te enganam.
Não estão longe, em outro mundo. Estão bem aqui, em nosso cotidiano. Podem estar na família, no trabalho, entre os amigos. No ponto de ônibus, nas redes, nas ruas. Estão espalhados, tentando matar nossas-suas vidas.
Resistimos. Vivemos e sobrevivemos. Existimos. Mal sabem eles que construímos seres e sonhos muito mais fortes bem em cima dos escombros.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Quando olhei nos olhos do horror

Até esta parte do caminho, não havia conseguido encarar tal criatura. Até aqui, qualquer visão dos contornos de sua sombra me faziam desviar o olhar, o pensamento, trilhar outros rumos.
Mas eis que fui adentrando suas sombras até chegar em sua imagem. Lá dentro, entre a sombra e seu corpo, um vento gelado pairou em minhas entranhas e foi sugando minhas energias até quase me derrubar.
Não podia desfalecer. Não desta vez. Não mais.
Ainda havia um pouco de ar e sangue quente que passavam por mim. Estavam lá, em meu abdômen, pulsando e resistindo à tontura e vertigem que me tomava a cada vez que olhava nos olhos dela.
Eu seguia viva, ainda que fraca.
Uma chama uterina me manteve sentada, encarando a criatura. O calor crescia, subia pela barriga, mãos, garganta, rosto. Não falei. A fúria de meu silêncio queimava todas as lanças que ela insistia em atirar em mim.
Deixar que aquelas lanças atravessassem meu coração seria como tirar a minha própria vida. Entregar-me à morte, à dor insuportável que vive na criatura. Entregar-me ao medo criador daquele ser.
Um ser covarde, cujo desejo maior é não ter que olhar para a sua dor. É ver seus maiores fantasmas me tomarem, para acreditar que são apenas meus. É aniquilar-me e rir sarcasticamente da minha morte. É vangloriar-se de seu poder sobre mim. É comemorar euforicamente a falsa conquista e controle do mundo. É não ouvir a ninguém, pois qualquer dúvida, qualquer outro, seriam responsáveis por ecos ensurdecedores, enlouquecedores.
Aquele ser, patriota de um país amorfo, sem nome, hasteia a bandeira da morte em plena vida.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Tão linda essa minha neta

“Vamos sair em cinco minutos, estão todas prontas?”
Meu pai se aprontara antes de nós quatro (eu, minha mãe e minhas duas irmãs).
Olhei-me no espelho. Calçava um all star branco, que eu vivia tentando sujar o máximo possível para que ficasse igual ao da menina do “Clube das Babás”, meu filme preferido na época.
Meu all star branco quase não aparecia por de baixo do macacão jeans. Eu gostava assim, de usar o macacão todo largo, arrastando no chão.
A camiseta por baixo do macacão também era larga. Não queria nada me apertando. A única coisa que apertava um pouco era o boné na cabeça. Usava ele virado pra trás.
All star, macacão e boné. Pronto, agora eu estava pronta para o almoço na casa da minha avó.
“O que é isso, Priscila? Uma menina como vc usando essa roupa? E esse boné?”
Após o comentário, um abraço seguido de tapinhas nas costas.
A próxima a ser recebida era minha irmã do meio. Dois anos mais nova que eu, ela usava uma mini-blusa rosa, dessas que deixam parte da barriga aparecendo. A calça legging era apertada e também colorida, antecipando a sandália com altas plataformas. Um brinco grande chacoalhava enquanto minha avó a abraçava sorridente.
“Tão linda essa minha neta!”

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quem habita a casa do silêncio?



Há muitos e muitos anos, o Medo habitava a casa do Silêncio. Ninguém sabia dizer em que momento o Medo entrou naquela casa, nem se lá morava alguém antes dele.
Na casa não havia janela, e as paredes eram as mais duras e grossas de todo o mundo. Nunca ninguém havia chegava perto da casa. Era verdade absoluta que qualquer um que tentasse se aproximar seria recebido com as flechas e os espinhos espalhadas em frente à construção. Por nunca ter saído de casa, o rosto do Medo não era conhecido por ninguém. Todos imaginavam que ele seria um monstro enorme, horrível e assustador.
O Desejo, que não morava naquela cidade, um dia chegou de uma longa viagem e parou para repousar por uns dias. Repousar era algo raro para o Desejo, que costumava andar, andar e nunca parar. Enquanto estava por lá, conversou com todos os habitantes daquele lugar.
Fazer perguntas era uma das coisas de que o Desejo mais gostava em seu dia a dia. Cada pergunta o direcionava para lugares e pessoas diferentes, por isso ele quase nunca parava quieto. Nessas longas conversas, perguntou aos moradores da cidade: “eu gostaria de dormir na casa do Silêncio, posso entrar lá?”.
Os moradores estranharam a pergunta. Nunca ninguém tinha se perguntado se poderia entrar na casa do Silêncio. Era a morada do Medo e ponto final.
Mesmo sem uma resposta, o Desejo foi até a casa.
Logo que abriu a porta, o calor que envolvia seu corpo agitado recebeu o frio que vinha lá de dentro.
Ao ouvir que alguém entrava em sua casa, o Medo assustou-se. Precisava ver quem era. Mas percebeu que estava todo congelado. Não havia reparado a camada de gelo que o cobrira durante todos esses anos.
Antes de entrar na casa, o Desejo percebeu que precisava parar para entender que lugar era aquele. Precisava de cuidado e atenção para desviar das flechas e dos espinhos que cercavam a casa.
Entrou na casa do Silêncio.
O calor que vinha do Desejo derretia a torre de gelo que impedia o Medo de se mexer. O frio que vinha do Medo pedia atenção e calma ao Desejo.
Encontraram-se. Olharam-se.
Quem é você?
Silenciaram, na casa do Silêncio.