Minhas viagens à praia de Guaecá, no litoral norte,
costumam ser uma busca pelo silêncio que vem do mar. Em uma das últimas vezes
em que estive lá, a calmaria das marolas foi substituída pelo florescer de
ondas lindas, porém dolorosas, que se formaram em meus pensamentos depois que
conheci Mariela dos Santos.
Em
um sábado cinzento de agosto, acordei em Guaecá e decidi que iria encontrar
alguns amigos em uma praia distante cerca de duas horas de onde eu estava. Logo
após o almoço, sentei-me no ponto de ônibus e, ao meus lado, ouvi vozes
solitárias. Olhei para os cabelos brancos e olhos azuis que se moviam ao lado
dos fones de ouvido que me separavam da realidade.
As
muitas rugas de Mariela revelavam sua idade avançada. “Tenho 81 anos, já estou
velha demais e não tenho mais o que viver”, contou-me ela, olhando fundo em
meus olhos. Sempre tive medo de olhares profundos, mas, naquele dia, decidi
mergulhar na imensidão turquesa que se construía à minha frente.
Mariela
pediu para se sentar no banco vazio ao meu lado, negando a minha ajuda para
acomodar sua bolsa pesada embaixo do assento. “Esta bolsa aqui tem sido a minha
maior companheira depois que meu marido e meu filho faleceram”. Enquanto me
contava sobre como era morar em Bertioga – onde vivia desde 2002 -, ela mexia
repetidamente na aliança de casamento que repousava em seu dedo há mais de
sessenta anos.
Antes
de descer do ônibus e fugir da tontura que aquela conversa havia me causado,
Mariela pediu meu número de telefone, para que me ligasse às segundas-feiras.
Segundo ela, estes eram os dias em que se sentia mais sozinha. Tive vontade de
dizer que, mesmo vivendo em meio à multidão paulistana, eu sentia a mesma angústia
que ela. Mas as palavras ficaram, mais uma vez, no caminho entre meu coração e
minha garganta.
Despedi-me
daquela senhora como quem se encontra com a vida e a morte no mesmo abraço.
Permaneci sentada em frente à porta da casa de meus amigos, em silêncio. Aquele
silêncio não era a ausência de palavras e, sim, a criação gritante de minha
busca pelo viver além das cascas protetoras.
Mariela
nunca me ligou, mas mesmo que continuemos sozinhas nos ônibus por aí, ela
permanece me ajudando a mergulhar nos mistérios indefiníveis que estão além da
superfície calma do mar, no espaço entre a beleza e a dor de viver, e que só podem
ser tecidos nos encontros.
Texto gostoso de ler =]
ResponderExcluirFico felizona em ler isso!
ExcluirPri, parabéns. Mto bom seu blog. Ótimas poesias. Poste sempre mais!!
ResponderExcluirEba! Obrigada, Marcelo! Vi que vc tb tem um blog; vou ler sempre que possível! :)
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPri!amei!seus textos sao tao bem escritos e todas as vezes que os leio,me fazem refletir sobre o que voce escreve!
ResponderExcluirParabens!
Beijos,nicka
Nicka, querida! Muito obrigada, mesmo! :)
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