quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Encontros entre o preto e o branco

Minhas viagens à praia de Guaecá, no litoral norte, costumam ser uma busca pelo silêncio que vem do mar. Em uma das últimas vezes em que estive lá, a calmaria das marolas foi substituída pelo florescer de ondas lindas, porém dolorosas, que se formaram em meus pensamentos depois que conheci Mariela dos Santos.
            Em um sábado cinzento de agosto, acordei em Guaecá e decidi que iria encontrar alguns amigos em uma praia distante cerca de duas horas de onde eu estava. Logo após o almoço, sentei-me no ponto de ônibus e, ao meus lado, ouvi vozes solitárias. Olhei para os cabelos brancos e olhos azuis que se moviam ao lado dos fones de ouvido que me separavam da realidade.
            As muitas rugas de Mariela revelavam sua idade avançada. “Tenho 81 anos, já estou velha demais e não tenho mais o que viver”, contou-me ela, olhando fundo em meus olhos. Sempre tive medo de olhares profundos, mas, naquele dia, decidi mergulhar na imensidão turquesa que se construía à minha frente.
            Mariela pediu para se sentar no banco vazio ao meu lado, negando a minha ajuda para acomodar sua bolsa pesada embaixo do assento. “Esta bolsa aqui tem sido a minha maior companheira depois que meu marido e meu filho faleceram”. Enquanto me contava sobre como era morar em Bertioga – onde vivia desde 2002 -, ela mexia repetidamente na aliança de casamento que repousava em seu dedo há mais de sessenta anos.
            Antes de descer do ônibus e fugir da tontura que aquela conversa havia me causado, Mariela pediu meu número de telefone, para que me ligasse às segundas-feiras. Segundo ela, estes eram os dias em que se sentia mais sozinha. Tive vontade de dizer que, mesmo vivendo em meio à multidão paulistana, eu sentia a mesma angústia que ela. Mas as palavras ficaram, mais uma vez, no caminho entre meu coração e minha garganta.
            Despedi-me daquela senhora como quem se encontra com a vida e a morte no mesmo abraço. Permaneci sentada em frente à porta da casa de meus amigos, em silêncio. Aquele silêncio não era a ausência de palavras e, sim, a criação gritante de minha busca pelo viver além das cascas protetoras.
            Mariela nunca me ligou, mas mesmo que continuemos sozinhas nos ônibus por aí, ela permanece me ajudando a mergulhar nos mistérios indefiníveis que estão além da superfície calma do mar, no espaço entre a beleza e a dor de viver, e que só podem ser tecidos nos encontros.

7 comentários:

  1. Pri, parabéns. Mto bom seu blog. Ótimas poesias. Poste sempre mais!!

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    1. Eba! Obrigada, Marcelo! Vi que vc tb tem um blog; vou ler sempre que possível! :)

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  2. Pri!amei!seus textos sao tao bem escritos e todas as vezes que os leio,me fazem refletir sobre o que voce escreve!
    Parabens!
    Beijos,nicka

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