domingo, 6 de maio de 2012

A Pedroso sem Raimundo

Passei os dias desde o meu último post sobre Raimundo Arruda pensando em uma forma de ajudá-lo.  Publicar o seu diário? Será que ele gostaria de ver as suas palavras sendo vendidas? Levar alimentos para ele todos os dias? Pensar em como tirá-lo de lá? Mas será que ele queria sair de lá? Não sei. Assim como não sei muitas coisas, e esse não saber às vezes paralisa. Dizem que ao escrever sobre algo ou alguém, você dá voz a uma situação que muitas vezes não é divulgada por aí, e que, assim, já está transformando a realidade.Talvez eu mesma tenha escrito isso no meu primeiro dia de "blogger". Mas acredito que essa questão é a que mais tem me perseguido e, de certa forma, me incomodado nos últimos tempos. Como eu, sentada na frente desse computador, escrevendo sobre situações que me comovem e sensibilizam, estou tranformando essas situações de verdade? Muitos falam que eu deveria me questionar menos, mas cada vez que sento para escrever, a sensação é a mesma.
Bom, voltemos ao Raimundo. Pensando (imobilizada) mais uma vez sobre todas essas questões, passei ontem pela "Ilha Pedroso de Moraes", como Raimundo costumava chamá-la, e ele não estava mais lá. Nem ele, nem seus escritos. Só havia uma placa na mangueira embaixo da qual ele passou 19 anos, dizendo que Raimundo está agora em um CAPS no Itaim e passa muito bem. O que me deixou feliz, foi o fato de alguém ter criado uma página no Facebook para ele. A partir dela, conseguiram achar membros da família da família Arruda. Ele passou uma tarde inteira conversando com seu irmão, que veio de Goiás para encontrá-lo.  

Assim que possível, vou até o CAPS visitar o escritor que me fez enxergar além do enquadramento da janela do carro, do ônibus, ou melhor, da minha própria janela. A questão, porém, não é somente enxergar além dela, e, sim, quebrá-la de vez.
A Pedroso está diferente sem as suas palavras, mas espero que elas, assim como Raimundo, estejam agora protegidas da chuva, do frio e da invisibilidade, constantes em nossa cidade. Constante como a minha dúvida: o que representou para ele a nossa conversa naquela quarta-feira na "Ilha"?

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